Sérgio Bernardino, ou simplesmente Serginho Chulapa, está perto de completar 58 anos (23/12). Revelado na base do São Paulo, chegou na Vila Belmiro em 1983, aos 29 anos, e logo de cara conseguiu a artilharia do Brasileirão, com 22 gols. No ano seguinte se transformou no grande protagonista da decisão do Paulistão, quando fez o gol do título diante do Corinthians, no Morumbi, sendo também o artilheiro do campeonato, com 22 gols mais uma vez.
Além de jogador, Serginho já foi treinador, auxiliar técnico e hoje exerce a função de olheiro no clube da Vila Belmiro. Em entrevista exclusiva ao “Santista Roxo”, Chulapa falou da sua trajetória no Peixe, do trabalho atual e também da expectativa em relação ao Mundial de Clubes.
Santista Roxo: Como foi ser superado pelo Borges na artilharia em Campeonatos Brasileiros?
Chulapa: Realmente a fase dele é extraordinária. Fiquei feliz, porque recorde é para ser quebrado e depois de muitos anos ele me ultrapassou, mas é legal porque assim o Santos consegue a vitória e ele é merecedor disso. Pra mim foi uma honra ele ter me superado.
SR: No que o Borges lembra o Serginho?
Chulapa: Atacante de área, atacante finalizador e ele tem uma característica muito importante: joga bem fora da área, chuta bem. É realmente merecedor. Se ele jogasse o campeonato pelo Santos desde o começo, fatalmente chegaria a 30, 34 gols com certeza.
SR: O reinado durou quase 30 anos, isso prova que estava difícil achar um matador verdadeiro?
Chulapa: Realmente ele encaixou como uma luva nesse time do Santos, uma fase extraordinária. Encaixou bem em um grande time, o que foi importante.
SR: Falando sobre o Santos, hoje o time não vive apenas e exclusivamente do Neymar e você falava do Borges. O que tem nesse time?
Chulapa: É um time diferenciado, um time que vem ganhando tudo que está disputando e que não depende só do Neymar. Tem um excelente treinador, um plantel também e hoje tem o privilégio de estar disputando o Mundial. É um time com variações de jogadas e é um grupo dificilmente de ser batido, pelas características dos jogadores. O time do Santos hoje é um dos melhores do mundo, na minha opinião.
SR: Só agora você foi superado na artilharia em Brasileiros, depois de quase 30 anos. E demorou 18 anos para o time voltar a ser campeão depois do Paulistão de 84. Por que antes era tão difícil?
Chulapa: Realmente foi uma fase e essa mudança foi importante para o Santos, que ficou tanto tempo sem ganhar um título, mas agora encaixou direitinho e passou a ser um grupo que até torcedores de outros times gostam de ver jogar. O Santos mudou muito e hoje é merecedor de tudo o que conquistou.
SR: Sobre o Mundial, você coloca fé no time? Vê condições do Santos superar o Barcelona?
Chulapa: Vejo sim. Eu estou muito confiante em relação a esse primeiro jogo e depois passando pelo Barcelona, que a gente não pode fugir disso. Com certeza vejo condições de bater de frente, eles têm grandes jogadores, mas o Santos também tem, então eu tenho a convicção que o Santos vai ganhar esse título.
SR: O que o Santos pode explorar para ganhar dos catalães?
Chulapa: O Santos tem que jogar da maneira que vem jogando, sem medo dos adversários, esse é o grande trunfo do Santos. Tem que partir para cima também, eles tem o Messi e nós o Neymar, estamos em igualdade de condições.
SR: Individualmente falando, você acha que o Barcelona tem atletas de um nível técnico melhor que os do Santos?
Chulapa: Está empatado. Eles têm grandes jogadores e nós também com o Neymar, o Paulo, um centroavante matador, sinceramente não vejo diferença não. São duas grandes equipes.
SR: Fora de campo, pesa a experiência do Muricy?
Chulapa: Com certeza. Um treinador vencedor voltou a ganhar a Libertadores depois de quase 50 anos e mais uma vez disputará o título do Mundo. A experiência do “Muri” vai ajudar bastante e como venho falando vai ser uma partida onde as duas equipes têm totais condições de conquistar o título, tanto pelo treinador quanto pelo plantel que participará da disputa.
SR: Chulapa você jogou com o Muricy no São Paulo?
Chulapa: Joguei nas equipes de base e no profissional, aproximadamente 7 anos juntos.
SR: Quem deixou o Morumbi primeiro?
Chulapa: Saímos na mesma época. O Muricy teve uma contusão e foi para o México. Se não estou enganado eu vim para o Santos em 82, mas acho que ele saiu alguns meses antes.
SR: O Serginho do Santos foi igual ao do São Paulo?
Chulapa: A mesma coisa, a mesma identidade. No São Paulo estive por 10 anos, contando o tempo da base. Fui muito feliz e depois foi um desafio vir para o Santos, afinal você sair de um time grande e chegar em outro clube grande do mesmo estado, não deixa de ser um desafio. Me dei bem aqui na cidade, no clube e foi o time da minha preferência. O Flamengo também se interessou na época, mas graças a Deus eu correspondi a todas as expectativas aqui em Santos.
SR: Você chegou a jogar em algum clube do exterior?
Chulapa: Eu tive uma passagem em Portugal, no Marítimo, da Ilha da Madeira, em 1988, e depois fui para a Turquia, em Istambul, fiquei 1 ano por lá. Na época não tinha muito do jogador atuar fora, mas eu já estava praticamente em fim de carreira.
SR: O Neymar preferiu ficar e não se empolgou com as propostas da Europa. A que se deve isso?
Chulapa: Diretoria. Hoje o Santos serve de exemplo para as outras equipes, mostrando que dá para segurar os craques aqui, enfim, a diretoria merece os parabéns por ter mantido o seu craque e incentivando as outras equipes a fazer o mesmo em relação aos seus principais atletas. Sem dúvida é um exemplo a ser seguido.
SR: O que o Serginho faz no Santos atualmente?
Chulapa: Hoje eu trabalho mais na base, observando os jogadores fora, fazendo peneiras, descobrindo talentos. A gente exerce essa função juntamente com o Joãozinho, Marcelo Fernandes, essa nova diretoria nos deu essa função.
SR: E você tem um bom “olho clínico”. Sensibilidade para isso?
Chulapa: A gente tem, só no andar já sabemos. Eu mesmo trouxe quatro jogadores para o clube, estão todos treinando. A gente tem essa sensibilidade, rodamos muito, nas periferias, é nesse lugar que estão os craques.
SR: Tem um menino na base, atacante, o Gustavo, você conhece?
Chulapa: Realmente, o Gustavo, não o conheço, mas já ouvi falar muito bem dele, mas é outro atleta que o Santos descobre. É como eu falo, a base do Santos é também referência para outras equipes, um trabalho com seriedade, por isso a revelação de tantos talentos.
SR: Santos e Corinthians são os que mais revelam jogadores hoje?
Chulapa: Corinthians nem tanto, eu diria o São Paulo, mas aqui no clube como o trabalho é sério, tem subido uma média de quatro a cinco jogadores por ano. Isso mostra a importância da base em revelar jogadores, formar o atleta, não se importar com os títulos. Na minha opinião, o Santos é um exemplo nisso.
SR: Você chegou a ser treinador uma época. Porque desistiu?
Chulapa: Acabou a paciência (risos) não tenho paciência não! Acho que esse trabalho que faço no Santos está bom, tive essa experiência de treinador, mas é difícil. Você pega um time formado, não é uma garantia, de repente você perde 2 ou 3 partidas e cai, então por opção resolvi desenvolver esse trabalho aqui no Santos.
SR: E quanto a parte financeira. Deu para ganhar dinheiro quando atleta?
Chulapa: Eu ganhei, mas eram épocas diferentes. Sinceramente eu não posso reclamar. A minha família não passa dificuldades, mas eu continuo trabalhando para manter o padrão. Hoje observo muitos ex-jogadores em situações difíceis, por isso que a “molecada” tem que ganhar dinheiro. A profissão é curta, 10 a 15 anos no máximo, então continuo na luta, mas não me queixo de nada.
SR: Os salários dos atletas são bem desiguais. Poucos ganham bem, porque?
Chulapa: Merecimento. Jogador que ganha bem fez por merecer isso e quem não conseguiu um bom salário tem que lutar por isso, deixar de reclamar e buscar o seu objetivo. Eu acredito que o jogador é mais ou menos “vale quanto pesa”. Quem está insatisfeito alega falta de oportunidade, tem que lutar pelo espaço.
SR: O Santos (a estrutura) pode ser equiparada a grandes clubes europeus?
Chulapa: Com certeza, hoje o Santos é a grande referência em todos os sentidos, desde a época do Marcelo (ex-presidente). O Luis Álvaro e essa diretoria que pensam para frente. Então, hoje, o Santos é um time que não deve para ninguém, que busca os seus objetivos e é o time da moda que todos querem jogar.
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